A vida cansava Camila mais do que a qualquer outro ser sobre a Terra. O circuito cama-trabalho-supermercado-igreja-cama tinha exaurido sua vontade de viver de uma vez por todas, e ela praticamente vegetava, seguindo o fluxo da rotina pré-estabelecida pela sociedade.
Mas, aconteceu de uma noite, mais precisamente no Equinócio de Primavera, Camila não conseguir dormir suas seis horas habituais, que de nada traziam descanso, apenas relaxamento material. Em vez do sono torpe e sem sonhos, ela presenciava um estranho fato em seu diminuto dormitório: uma pequena porta de madeira escura e maçaneta reluzente aparecera no espaço entre o roupeiro e a parede.
Atônita, levanta-se e abre a porta, prostrando-se de joelhos para tentar ver o que poderia haver detrás da porta, pouco maior que sua cabeça.
Uma interjeição de espanto, um arrepio, e Camila tinha sido misteriosamente transportada para o outro lado da porta.
Ela agora experimentava a ausência de peso de uma queda livre, causando-lhe um misto de assombro divertido e medo. Será que morreria da queda? O que poderia haver no fim daquele “precipício”? E o mais importante: como teria ela chegado até ali?
Essa gama de acontecimentos e sensações parecia tê-la despertado do torpor que ela tinha vivido por toda sua vida adulta. Ela voltara a ter a percepção maravilhada de mundo que uma criança possui.
Camila sentiu que podia voar, e começou a agitar os braços no compasso constante das aves. Logo ela tinha conseguido tomar o controle da queda, tornando-a um vôo suave, que a levou suavemente ao solo, aportando em um imenso prado esmeraldino, pontilhado de flores multicores.
Um sorriso iluminou seu rosto, como a muito não se via, e, na alegria segura de uma criança livre, pôs se a correr e gargalhar por entre as flores do prado.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
terça-feira, 22 de abril de 2008
Memórias da pane no tempo
Aos que me lêem, um bom dia.
Não sei que dia ou que ano é agora, para vocês meus leitores, mas sei que eu congelei em um dia de minha vida cinza, que se repete vez após outra, infinitamente e ininterruptamente. Todo dia, após acordas, vivo os mesmos fatos: a humilhação, a batida de carro, o orgasmo fugidio e clandestino com um completo desconhecido. Dia após dia, o tempo todo...
Mas, o que é tempo?
Eu lhes pergunto porque não mais sei o que ele é, nem o que é sua passagem. Desde sempre vivi a vida como um autômato, apenas subsistindo. Com a fatídica repetição dos dias, nada aprendi e muito esqueci.
Aliás, o que é o saber?
Vocês talvez entendam o conceito, e dele participem sem perceber. Eu abandonei a escola antes de sequer começá-la efetivamente, troquei-a por porres e libertinagem, que me levaram à vida de escravo da rotina. De meus tempos de escola disto exatos vinte anos. Este tempo afastado dos estudos enrijeceu meu cérebro; e a vida maldita enrijeceu meu espírito.
Por falar no assunto, e Deus?
Para quem quer, Deus pode ser uma força que nos rege, um salvador, uma inspiração; algo real, em suma. Mas, para quem vive uma subvida, encalacrado nos mecanismos do relógio do cosmos, vendo aurora se repetir à exaustão toda vez que se abre os olhos, vendo as mesmas pessoas, nos mesmos casos, vendo a degradação que se aloja em cada um dos seus próprios atos, sabe que "Ele" é uma alegoria pífia.
Mas, não tenho mais tempo para discorrer o assunto com vocês. Já chegam as nove horas, e o ciclo começa a se refazer para mais um dia que já ocorreu.
Não sei que dia ou que ano é agora, para vocês meus leitores, mas sei que eu congelei em um dia de minha vida cinza, que se repete vez após outra, infinitamente e ininterruptamente. Todo dia, após acordas, vivo os mesmos fatos: a humilhação, a batida de carro, o orgasmo fugidio e clandestino com um completo desconhecido. Dia após dia, o tempo todo...
Mas, o que é tempo?
Eu lhes pergunto porque não mais sei o que ele é, nem o que é sua passagem. Desde sempre vivi a vida como um autômato, apenas subsistindo. Com a fatídica repetição dos dias, nada aprendi e muito esqueci.
Aliás, o que é o saber?
Vocês talvez entendam o conceito, e dele participem sem perceber. Eu abandonei a escola antes de sequer começá-la efetivamente, troquei-a por porres e libertinagem, que me levaram à vida de escravo da rotina. De meus tempos de escola disto exatos vinte anos. Este tempo afastado dos estudos enrijeceu meu cérebro; e a vida maldita enrijeceu meu espírito.
Por falar no assunto, e Deus?
Para quem quer, Deus pode ser uma força que nos rege, um salvador, uma inspiração; algo real, em suma. Mas, para quem vive uma subvida, encalacrado nos mecanismos do relógio do cosmos, vendo aurora se repetir à exaustão toda vez que se abre os olhos, vendo as mesmas pessoas, nos mesmos casos, vendo a degradação que se aloja em cada um dos seus próprios atos, sabe que "Ele" é uma alegoria pífia.
Mas, não tenho mais tempo para discorrer o assunto com vocês. Já chegam as nove horas, e o ciclo começa a se refazer para mais um dia que já ocorreu.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Hiroshima
Imagine-se em um dia ensolarado, numa cidade calma, em um dia comum. Você está andando pelas ruas da cidade, e vê pessoas despreocupadas, falando umas com as outras, carregando sacolas, indo ao trabalho ou à escola. Tudo parece normal; mas você sente algo pesado no ar.
Você olha para o céu, tentando entender essa sensação, e tudo o que você vê é um azul plácido, resplandecente, quase sem nuvens. Também sente uma brisa suave, que te passa uma sensação de paz; e você sorri...
Sorri até ver o motivo do peso no ar.
o Vulto de um anjo se forma contra a claridade branca do sol, e você se esforça para divisar as formas negras dele. Algo toma posse de sua alma, e você petrifica onde parou, e todos parecem ter sumido de seu redor.
O anjo da morte continua mergulhando do firmamento; e sua face horrenda invade tuas retinas. Você cai de joelhos, com os olhos marejados de lágrimas, sentindo o fim de tudo galopar em sua direção.
E o Anjo toca o chão...
E com ele se levanta uma nuvem de fogo e destroços, que se espalha, junto com o ódio vindo do coração desse anjo decaído. Também se espalha uma estranha energia, que te engolfa como uma onda; Você sente essa energia te consumindo, atacando cada pedaço, cada átomo do seu ser, destruindo-o e remontando-o grotescamente. Você cai no chão, seus ossos parecem em chamas, sua pele se desfaz no ar, e você ouve ao longe a hedionda gargalhada do anjo.
Não há mais luz, não há mais ar, não há mais dor.
E então, nada.
Você olha para o céu, tentando entender essa sensação, e tudo o que você vê é um azul plácido, resplandecente, quase sem nuvens. Também sente uma brisa suave, que te passa uma sensação de paz; e você sorri...
Sorri até ver o motivo do peso no ar.
o Vulto de um anjo se forma contra a claridade branca do sol, e você se esforça para divisar as formas negras dele. Algo toma posse de sua alma, e você petrifica onde parou, e todos parecem ter sumido de seu redor.
O anjo da morte continua mergulhando do firmamento; e sua face horrenda invade tuas retinas. Você cai de joelhos, com os olhos marejados de lágrimas, sentindo o fim de tudo galopar em sua direção.
E o Anjo toca o chão...
E com ele se levanta uma nuvem de fogo e destroços, que se espalha, junto com o ódio vindo do coração desse anjo decaído. Também se espalha uma estranha energia, que te engolfa como uma onda; Você sente essa energia te consumindo, atacando cada pedaço, cada átomo do seu ser, destruindo-o e remontando-o grotescamente. Você cai no chão, seus ossos parecem em chamas, sua pele se desfaz no ar, e você ouve ao longe a hedionda gargalhada do anjo.
Não há mais luz, não há mais ar, não há mais dor.
E então, nada.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Vôo ao luar
O vento da noite soprava gélido, e fustigavaos longos cabelos negros de Anita. Ela estava encolhida na laje de seu prédio, trajando apenas uma camisola, com a pele arrepiada e os olhos marejados.
Suas lágrimas caiam como pequenos petardos salgados e mornos na calçada enquanto ela chorava em silêncio, admirando os trinta andares que a separavam do chão. Algo negro batia silencioso em seu coração e a corroia por dentro, afogando-a cada vez mais em uma espiral de sofrimentos e angústias.
Anita sentia um nó na garganta: queria pular, mergulhar ao chão, encerrar a sequência de desastres em sua vida com um encontro brusco com o solo, mas também tinha algo que a segurava. Aglo como medo, mas que vinha com o vento frio, e com o leve fprmigamento nos pés que sentia ao contemplar o fundo mergulho que o separava da rua.
Ela respira fundo, e sente seus pulmões arderem da friaca do vento noturno e outras tantas coisas, que fizeram-na se resolver.
Anita levantou-se, pos-se de pé na quina do edifício, abriu os braços, olhou a lua minguante, e esta pareceu piscar para ela. Ela inspirou de novo e deu um passo ao vazio.
A sensação doce de não ter peso invadiu-lhe o corpo, e ela sorriu enquanto ia pairando em direção ao solo, a camisola branca panejava fantasmagoricamente à parca luz do luar, e ela ria suavemente enquanto os segundos descorriam. E depois, nada.
Roupas de um negro sóbrio e olhares tristes e pesarosos permeavam o salão, odne todos perguntavam aos outros e a sí mesmos: por que Anita parecia sorri de dentro de seu caixão, à caminho do sepulcro?
Suas lágrimas caiam como pequenos petardos salgados e mornos na calçada enquanto ela chorava em silêncio, admirando os trinta andares que a separavam do chão. Algo negro batia silencioso em seu coração e a corroia por dentro, afogando-a cada vez mais em uma espiral de sofrimentos e angústias.
Anita sentia um nó na garganta: queria pular, mergulhar ao chão, encerrar a sequência de desastres em sua vida com um encontro brusco com o solo, mas também tinha algo que a segurava. Aglo como medo, mas que vinha com o vento frio, e com o leve fprmigamento nos pés que sentia ao contemplar o fundo mergulho que o separava da rua.
Ela respira fundo, e sente seus pulmões arderem da friaca do vento noturno e outras tantas coisas, que fizeram-na se resolver.
Anita levantou-se, pos-se de pé na quina do edifício, abriu os braços, olhou a lua minguante, e esta pareceu piscar para ela. Ela inspirou de novo e deu um passo ao vazio.
A sensação doce de não ter peso invadiu-lhe o corpo, e ela sorriu enquanto ia pairando em direção ao solo, a camisola branca panejava fantasmagoricamente à parca luz do luar, e ela ria suavemente enquanto os segundos descorriam. E depois, nada.
Roupas de um negro sóbrio e olhares tristes e pesarosos permeavam o salão, odne todos perguntavam aos outros e a sí mesmos: por que Anita parecia sorri de dentro de seu caixão, à caminho do sepulcro?
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Visitas Dominicais
Ana Terra vivia sua vida em paz com tudo e todos, curtindo os sons e sabores que a vida lhe dava, sem interferir com a vida de ninguém. E ninguém jamais interferiu na dela, excteo por um fatidico encontro...
Em um domingo de brisas amenas, quando ela despia-se de suas obrigações e se espreguiçava morosamente no sofá de sua sala de estar, a campainha interrompeu a quietude do dia com um soar frenetico e insistente. Com pronunciada preguiça ela se põe de pé e espia pelo olho mágico da porta, vendo do outro lado da porta senhor engomadinho e alinhado, com camisa dentro das calças e gravata, careca escovada e óculos fundo-de garrafa. Ele carregava um volume encadernado em couro, facilmente identificado como uma bíblia, debaixo do braço. Ele pede para entrar; e ela sabia que ele ia falar sobre "o messias" e toda a falácia incomoda usada sempre pelos crentes fanáticos para acossar aqueles que visitam.
Ana deixa-o entrar, fervilhando de ódio pela incômoda interrupção em seu esplêndido domingo. Ela pretendia acabar com tudo rapidamente, já ele parecia disposto a falar por horas.
E assim ele começou sua arenga evangelista, e Ana escutava tudo de cara fechada, apoiada na mesa de jantar, meio de lado. O tomara-que-caia dela escorregou um pouco de seu ombro, revelando uma fina tatuagem...
O incômodo falante silencia-se um momento, arruma com os dedos a coroinha de cabelo que sobrou em volta de sua careca precoce, e perguntou de que se tratava a tatuagem no ombro de Ana. Ela explica que se trata de um ideograma de alguma religião primitiva, um símbolodos deuses antigos pré-cristãos; e instintivamente tampou o desenho com a manga novamente.
Foi o suficiente para dar ignição na furia reacionária fanática religiosa retrograda do incômodo visitante. Ele se pôs a berrar, chamando-a de "mundana", "satânica", acusando-a de heresias e pactos com satã e outras tantas ofensas ridículas. Ela fala para ele se retirar de sua casa, mas ele continua dizendo que coisas a ela, e dizendo que vai purificar o local, banindo-a do convivio das boas almas para sempre.
Ana Terra tinha chegado ao limite. Ana Terra tinha sido tolerante o suficiente. Ana Terra então agiu instintivamente.
Suas mãos se fecharam firmemente em volta do pescoço do crente incômodo, cortando-lhe o ar, e levantando-o até a altura dos olhos dela. E ela o prensou contra a parede.
As mãos se travaram em volta da garganta do inconveniente escorado na parede. Ana admirou a vermelhidão das veias dos olhos aflorar fortemente no rosto dele, e também acompanhou a perda do brilho nos olhos dele, viu as cores sumirem de seu rosto, seus óculos cairem e se partirem. O corpo dele se debatia e esperneava, mas logo sossegou com o passar do tempo no aperto; e logo suas faces arrochearam e seus olhos viraram. Ana Terra deixou o corpo molenga cair no chão, inerte.
E assim, ela nunca mais precisou se levantar e atender visitas indesejadas no domingo.
Em um domingo de brisas amenas, quando ela despia-se de suas obrigações e se espreguiçava morosamente no sofá de sua sala de estar, a campainha interrompeu a quietude do dia com um soar frenetico e insistente. Com pronunciada preguiça ela se põe de pé e espia pelo olho mágico da porta, vendo do outro lado da porta senhor engomadinho e alinhado, com camisa dentro das calças e gravata, careca escovada e óculos fundo-de garrafa. Ele carregava um volume encadernado em couro, facilmente identificado como uma bíblia, debaixo do braço. Ele pede para entrar; e ela sabia que ele ia falar sobre "o messias" e toda a falácia incomoda usada sempre pelos crentes fanáticos para acossar aqueles que visitam.
Ana deixa-o entrar, fervilhando de ódio pela incômoda interrupção em seu esplêndido domingo. Ela pretendia acabar com tudo rapidamente, já ele parecia disposto a falar por horas.
E assim ele começou sua arenga evangelista, e Ana escutava tudo de cara fechada, apoiada na mesa de jantar, meio de lado. O tomara-que-caia dela escorregou um pouco de seu ombro, revelando uma fina tatuagem...
O incômodo falante silencia-se um momento, arruma com os dedos a coroinha de cabelo que sobrou em volta de sua careca precoce, e perguntou de que se tratava a tatuagem no ombro de Ana. Ela explica que se trata de um ideograma de alguma religião primitiva, um símbolodos deuses antigos pré-cristãos; e instintivamente tampou o desenho com a manga novamente.
Foi o suficiente para dar ignição na furia reacionária fanática religiosa retrograda do incômodo visitante. Ele se pôs a berrar, chamando-a de "mundana", "satânica", acusando-a de heresias e pactos com satã e outras tantas ofensas ridículas. Ela fala para ele se retirar de sua casa, mas ele continua dizendo que coisas a ela, e dizendo que vai purificar o local, banindo-a do convivio das boas almas para sempre.
Ana Terra tinha chegado ao limite. Ana Terra tinha sido tolerante o suficiente. Ana Terra então agiu instintivamente.
Suas mãos se fecharam firmemente em volta do pescoço do crente incômodo, cortando-lhe o ar, e levantando-o até a altura dos olhos dela. E ela o prensou contra a parede.
As mãos se travaram em volta da garganta do inconveniente escorado na parede. Ana admirou a vermelhidão das veias dos olhos aflorar fortemente no rosto dele, e também acompanhou a perda do brilho nos olhos dele, viu as cores sumirem de seu rosto, seus óculos cairem e se partirem. O corpo dele se debatia e esperneava, mas logo sossegou com o passar do tempo no aperto; e logo suas faces arrochearam e seus olhos viraram. Ana Terra deixou o corpo molenga cair no chão, inerte.
E assim, ela nunca mais precisou se levantar e atender visitas indesejadas no domingo.
sábado, 15 de dezembro de 2007
Martinis & Tesouras
Cristina jazia na cama de campanha do quarto de visitas de sua casa. Estava completamente bêbada, desfalecida e esparramada, com uma das mãos arrastando no chão e uma manta torcida em seus pés.
Uma música vagamente épica tocava na sala, onde um velho tocador de LP arranhava um dos seus muitos "bolachões"; e com essa música, uma centelha de lucidez se formou na mente dela ao ouvir tal melodia.
Lá dentro da mente de Cristina, a centelha tentava fazê-la entender o que ocorrera para ela estar ali atirada como um cadáver e aquela música tinha algo à ver com aquele estado.
Cristina estremeceu: a centelha parecia ter formado uma onda em sua mente, e com ela vieram imagens turvas de rostos, formas, cores e alguns sons. Mas tudo logo que chegava, ia-se embora.
Exceto uma...
Um rapaz de rosto agressivo falava-lhe algo que ela não recordava, mas que sabia que a ofendera de algum modo; ele também a tocava na cintura de um modo incômodo, e ela o empurrara com a mão para afastá-lo, derrubando seu drinque na camisa branca dele. Ela sai cambaleando pelo corredor, e ele empurra Cristina para dentro do quartinho onde ela agora estava. Ele tranca a porta, abafando a balburdia da festa, e fazendo qualquer som que fosse produzido no quarto ficar inaudível para o meio externo. Ela exala pânico; ele, ódio, furor e álcool. Ele desafivelava o cinto com as piores intenções; ela se escorava na parede em desespero.
E na parede, Cristina encontra uma tesoura pendurada ao seu alcance. Ele continua avançando de armas em punho. Ela estica o braço, e as lâminas gêmeas acalmam o rapaz com golpes curtos.
Cristina reune seus esforços e energias, e abre os olhos vagarosamente. Ela constata que o vulto do rapaz, com a camisa agora vermelha, jazia imóvel no chão do pequeno cômodo.
Cristina da um muxoxo de desprezo e de sono, e volta a dormir.
Uma música vagamente épica tocava na sala, onde um velho tocador de LP arranhava um dos seus muitos "bolachões"; e com essa música, uma centelha de lucidez se formou na mente dela ao ouvir tal melodia.
Lá dentro da mente de Cristina, a centelha tentava fazê-la entender o que ocorrera para ela estar ali atirada como um cadáver e aquela música tinha algo à ver com aquele estado.
Cristina estremeceu: a centelha parecia ter formado uma onda em sua mente, e com ela vieram imagens turvas de rostos, formas, cores e alguns sons. Mas tudo logo que chegava, ia-se embora.
Exceto uma...
Um rapaz de rosto agressivo falava-lhe algo que ela não recordava, mas que sabia que a ofendera de algum modo; ele também a tocava na cintura de um modo incômodo, e ela o empurrara com a mão para afastá-lo, derrubando seu drinque na camisa branca dele. Ela sai cambaleando pelo corredor, e ele empurra Cristina para dentro do quartinho onde ela agora estava. Ele tranca a porta, abafando a balburdia da festa, e fazendo qualquer som que fosse produzido no quarto ficar inaudível para o meio externo. Ela exala pânico; ele, ódio, furor e álcool. Ele desafivelava o cinto com as piores intenções; ela se escorava na parede em desespero.
E na parede, Cristina encontra uma tesoura pendurada ao seu alcance. Ele continua avançando de armas em punho. Ela estica o braço, e as lâminas gêmeas acalmam o rapaz com golpes curtos.
Cristina reune seus esforços e energias, e abre os olhos vagarosamente. Ela constata que o vulto do rapaz, com a camisa agora vermelha, jazia imóvel no chão do pequeno cômodo.
Cristina da um muxoxo de desprezo e de sono, e volta a dormir.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Conto do ônibus
Embarquei em um ônibus inter estadual esta noite, numa tentativa desesperada de ir embora de minha terra e recomeçar do zero. Sentei num dos bancos do fundo, e acomodei minha mochila entre meu pés.
Logo após, me seguiram mulheres com crianças, um velho com capote e chapéu, um chapéu que me lembrava o de um almirante, e um rapaz de farda militar. Todos se acomodaram nas poltronas do fundo, ocupando toda a traseira do ônibus.
O ônibus partiu chacoalhando fortemente. A noite estava muito escura, e os postes esparsos projetavam lampejos fantasmagóricos de luz dentro do ônibus, que iluminavam os rostos pesarosos e cansados dos viajantes. Havia um ar de cumplicidade entre todos nós, viajantes noturnos, como se nossos destinos estivessem unidos.
A viajem seguia calma, não houve um único bandoleiro para importunar o motorista ou aterrorizar os passageiros. Quase todos dormiam, exceto alguns poucos que liam livros para passar o tempo. Um rapaz na janela da traseira fumava um cigarro, só não sei de quê.
Percorri com os olhos os bancos iluminados pelos fachos de luz que vinham do teto, e cruzei olhares com uma menininha que não se deixou vencer pelo sono. ela não deveria ter mais que dez anos, mas seu olhar era o de uma senhora distinta. um olhar firme e austero vinha para mim daqueles olhos verdes.
Aquele olhar deu-me a certeza de minha escolha, a certeza de ter acertado ao resolver deixar para trás os vícios da metrópole e refazer minha história numa cidadela pacata no interior do estado vizinho.
O ônibus parou numa estação de uma cidadezinha charmosa no meio de um local aparentemente árido, mas belo ainda assim. Era naquela cidade que eu iria recompor a minha vida.
Mais algumas pessoas desciam do ônibus enquanto eu o olhava uma última vez. E mirando-o encontrei novamente a menina que me dera aquele olhar; acenei para ela, como que diz obrigado e adeus, e ela retribuiu com um sorriso em sua delicada boca. Logo então, o ônibus partiu e foi engolido pelo negrume da noite.
Logo após, me seguiram mulheres com crianças, um velho com capote e chapéu, um chapéu que me lembrava o de um almirante, e um rapaz de farda militar. Todos se acomodaram nas poltronas do fundo, ocupando toda a traseira do ônibus.
O ônibus partiu chacoalhando fortemente. A noite estava muito escura, e os postes esparsos projetavam lampejos fantasmagóricos de luz dentro do ônibus, que iluminavam os rostos pesarosos e cansados dos viajantes. Havia um ar de cumplicidade entre todos nós, viajantes noturnos, como se nossos destinos estivessem unidos.
A viajem seguia calma, não houve um único bandoleiro para importunar o motorista ou aterrorizar os passageiros. Quase todos dormiam, exceto alguns poucos que liam livros para passar o tempo. Um rapaz na janela da traseira fumava um cigarro, só não sei de quê.
Percorri com os olhos os bancos iluminados pelos fachos de luz que vinham do teto, e cruzei olhares com uma menininha que não se deixou vencer pelo sono. ela não deveria ter mais que dez anos, mas seu olhar era o de uma senhora distinta. um olhar firme e austero vinha para mim daqueles olhos verdes.
Aquele olhar deu-me a certeza de minha escolha, a certeza de ter acertado ao resolver deixar para trás os vícios da metrópole e refazer minha história numa cidadela pacata no interior do estado vizinho.
O ônibus parou numa estação de uma cidadezinha charmosa no meio de um local aparentemente árido, mas belo ainda assim. Era naquela cidade que eu iria recompor a minha vida.
Mais algumas pessoas desciam do ônibus enquanto eu o olhava uma última vez. E mirando-o encontrei novamente a menina que me dera aquele olhar; acenei para ela, como que diz obrigado e adeus, e ela retribuiu com um sorriso em sua delicada boca. Logo então, o ônibus partiu e foi engolido pelo negrume da noite.
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