sexta-feira, 11 de abril de 2008

Vôo ao luar

O vento da noite soprava gélido, e fustigavaos longos cabelos negros de Anita. Ela estava encolhida na laje de seu prédio, trajando apenas uma camisola, com a pele arrepiada e os olhos marejados.

Suas lágrimas caiam como pequenos petardos salgados e mornos na calçada enquanto ela chorava em silêncio, admirando os trinta andares que a separavam do chão. Algo negro batia silencioso em seu coração e a corroia por dentro, afogando-a cada vez mais em uma espiral de sofrimentos e angústias.

Anita sentia um nó na garganta: queria pular, mergulhar ao chão, encerrar a sequência de desastres em sua vida com um encontro brusco com o solo, mas também tinha algo que a segurava. Aglo como medo, mas que vinha com o vento frio, e com o leve fprmigamento nos pés que sentia ao contemplar o fundo mergulho que o separava da rua.

Ela respira fundo, e sente seus pulmões arderem da friaca do vento noturno e outras tantas coisas, que fizeram-na se resolver.

Anita levantou-se, pos-se de pé na quina do edifício, abriu os braços, olhou a lua minguante, e esta pareceu piscar para ela. Ela inspirou de novo e deu um passo ao vazio.

A sensação doce de não ter peso invadiu-lhe o corpo, e ela sorriu enquanto ia pairando em direção ao solo, a camisola branca panejava fantasmagoricamente à parca luz do luar, e ela ria suavemente enquanto os segundos descorriam. E depois, nada.

Roupas de um negro sóbrio e olhares tristes e pesarosos permeavam o salão, odne todos perguntavam aos outros e a sí mesmos: por que Anita parecia sorri de dentro de seu caixão, à caminho do sepulcro?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Visitas Dominicais

Ana Terra vivia sua vida em paz com tudo e todos, curtindo os sons e sabores que a vida lhe dava, sem interferir com a vida de ninguém. E ninguém jamais interferiu na dela, excteo por um fatidico encontro...

Em um domingo de brisas amenas, quando ela despia-se de suas obrigações e se espreguiçava morosamente no sofá de sua sala de estar, a campainha interrompeu a quietude do dia com um soar frenetico e insistente. Com pronunciada preguiça ela se põe de pé e espia pelo olho mágico da porta, vendo do outro lado da porta senhor engomadinho e alinhado, com camisa dentro das calças e gravata, careca escovada e óculos fundo-de garrafa. Ele carregava um volume encadernado em couro, facilmente identificado como uma bíblia, debaixo do braço. Ele pede para entrar; e ela sabia que ele ia falar sobre "o messias" e toda a falácia incomoda usada sempre pelos crentes fanáticos para acossar aqueles que visitam.

Ana deixa-o entrar, fervilhando de ódio pela incômoda interrupção em seu esplêndido domingo. Ela pretendia acabar com tudo rapidamente, já ele parecia disposto a falar por horas.

E assim ele começou sua arenga evangelista, e Ana escutava tudo de cara fechada, apoiada na mesa de jantar, meio de lado. O tomara-que-caia dela escorregou um pouco de seu ombro, revelando uma fina tatuagem...

O incômodo falante silencia-se um momento, arruma com os dedos a coroinha de cabelo que sobrou em volta de sua careca precoce, e perguntou de que se tratava a tatuagem no ombro de Ana. Ela explica que se trata de um ideograma de alguma religião primitiva, um símbolodos deuses antigos pré-cristãos; e instintivamente tampou o desenho com a manga novamente.

Foi o suficiente para dar ignição na furia reacionária fanática religiosa retrograda do incômodo visitante. Ele se pôs a berrar, chamando-a de "mundana", "satânica", acusando-a de heresias e pactos com satã e outras tantas ofensas ridículas. Ela fala para ele se retirar de sua casa, mas ele continua dizendo que coisas a ela, e dizendo que vai purificar o local, banindo-a do convivio das boas almas para sempre.

Ana Terra tinha chegado ao limite. Ana Terra tinha sido tolerante o suficiente. Ana Terra então agiu instintivamente.

Suas mãos se fecharam firmemente em volta do pescoço do crente incômodo, cortando-lhe o ar, e levantando-o até a altura dos olhos dela. E ela o prensou contra a parede.

As mãos se travaram em volta da garganta do inconveniente escorado na parede. Ana admirou a vermelhidão das veias dos olhos aflorar fortemente no rosto dele, e também acompanhou a perda do brilho nos olhos dele, viu as cores sumirem de seu rosto, seus óculos cairem e se partirem. O corpo dele se debatia e esperneava, mas logo sossegou com o passar do tempo no aperto; e logo suas faces arrochearam e seus olhos viraram. Ana Terra deixou o corpo molenga cair no chão, inerte.

E assim, ela nunca mais precisou se levantar e atender visitas indesejadas no domingo.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Martinis & Tesouras

Cristina jazia na cama de campanha do quarto de visitas de sua casa. Estava completamente bêbada, desfalecida e esparramada, com uma das mãos arrastando no chão e uma manta torcida em seus pés.

Uma música vagamente épica tocava na sala, onde um velho tocador de LP arranhava um dos seus muitos "bolachões"; e com essa música, uma centelha de lucidez se formou na mente dela ao ouvir tal melodia.

Lá dentro da mente de Cristina, a centelha tentava fazê-la entender o que ocorrera para ela estar ali atirada como um cadáver e aquela música tinha algo à ver com aquele estado.

Cristina estremeceu: a centelha parecia ter formado uma onda em sua mente, e com ela vieram imagens turvas de rostos, formas, cores e alguns sons. Mas tudo logo que chegava, ia-se embora.

Exceto uma...

Um rapaz de rosto agressivo falava-lhe algo que ela não recordava, mas que sabia que a ofendera de algum modo; ele também a tocava na cintura de um modo incômodo, e ela o empurrara com a mão para afastá-lo, derrubando seu drinque na camisa branca dele. Ela sai cambaleando pelo corredor, e ele empurra Cristina para dentro do quartinho onde ela agora estava. Ele tranca a porta, abafando a balburdia da festa, e fazendo qualquer som que fosse produzido no quarto ficar inaudível para o meio externo. Ela exala pânico; ele, ódio, furor e álcool. Ele desafivelava o cinto com as piores intenções; ela se escorava na parede em desespero.

E na parede, Cristina encontra uma tesoura pendurada ao seu alcance. Ele continua avançando de armas em punho. Ela estica o braço, e as lâminas gêmeas acalmam o rapaz com golpes curtos.

Cristina reune seus esforços e energias, e abre os olhos vagarosamente. Ela constata que o vulto do rapaz, com a camisa agora vermelha, jazia imóvel no chão do pequeno cômodo.

Cristina da um muxoxo de desprezo e de sono, e volta a dormir.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Conto do ônibus

Embarquei em um ônibus inter estadual esta noite, numa tentativa desesperada de ir embora de minha terra e recomeçar do zero. Sentei num dos bancos do fundo, e acomodei minha mochila entre meu pés.

Logo após, me seguiram mulheres com crianças, um velho com capote e chapéu, um chapéu que me lembrava o de um almirante, e um rapaz de farda militar. Todos se acomodaram nas poltronas do fundo, ocupando toda a traseira do ônibus.

O ônibus partiu chacoalhando fortemente. A noite estava muito escura, e os postes esparsos projetavam lampejos fantasmagóricos de luz dentro do ônibus, que iluminavam os rostos pesarosos e cansados dos viajantes. Havia um ar de cumplicidade entre todos nós, viajantes noturnos, como se nossos destinos estivessem unidos.

A viajem seguia calma, não houve um único bandoleiro para importunar o motorista ou aterrorizar os passageiros. Quase todos dormiam, exceto alguns poucos que liam livros para passar o tempo. Um rapaz na janela da traseira fumava um cigarro, só não sei de quê.

Percorri com os olhos os bancos iluminados pelos fachos de luz que vinham do teto, e cruzei olhares com uma menininha que não se deixou vencer pelo sono. ela não deveria ter mais que dez anos, mas seu olhar era o de uma senhora distinta. um olhar firme e austero vinha para mim daqueles olhos verdes.

Aquele olhar deu-me a certeza de minha escolha, a certeza de ter acertado ao resolver deixar para trás os vícios da metrópole e refazer minha história numa cidadela pacata no interior do estado vizinho.

O ônibus parou numa estação de uma cidadezinha charmosa no meio de um local aparentemente árido, mas belo ainda assim. Era naquela cidade que eu iria recompor a minha vida.

Mais algumas pessoas desciam do ônibus enquanto eu o olhava uma última vez. E mirando-o encontrei novamente a menina que me dera aquele olhar; acenei para ela, como que diz obrigado e adeus, e ela retribuiu com um sorriso em sua delicada boca. Logo então, o ônibus partiu e foi engolido pelo negrume da noite.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Esperanças Juvenis

(antes de ler este post, baixe as músicas citadas para completar a experiência deste texto
Feist - 1 2 3 4: http://www.4shared.com/file/29975444/40be14f0/1234.html?dirPwdVerified=78f3a5ac

Belanova - Me Pregunto Porque: http://www.4shared.com/file/29974711/f759cd06/Me_Pregunto_Porque.html?dirPwdVerified=78f3a5ac

bom divertimento)

Oh, Teenage hopes, gimme tears in the eyes...
Feist - 1 2 3 4

Marina estava deitada no banco de trás do carro de seu namorado. Ambos tinham acabado de sair do bar mais badalado da cidade, e estavam meio tontos...

Ela estava deitada de barriga pra cima, ouvindo músicas dançantes argentinas, enquanto seu namorado guiava o carro, a despeito dos berros de "bêbado desgraçado" dos outros motoristas, reclamando das loucuras que ele fazia com birita na cabeça.

Mas ela nem ligava para os solavancos do carro em alta velocidade, nem para as imprudências que seu amor fazia. Ela apenas relaxava ouvindo Belanova cantar "Me Pregunto Porque" e sonhando...

Ela tinha esperanças de que ele decidisse se casar com ela, esperança de usar véu e grinalda, de entrar na igreja toda de branco, de vê-lo entrando de fraque, e de ver seus entes queridos emocionados com a cerimonia...

Mas seus sonhos foram interrompidos com um barulho de vidro sendo triturado, de aço se retorcendo, e os gritos de dor de uma voz conhecida.

Um poste se posicionou no caminho dos sonhos de Marina. Sonhos que ela sonhará eternamente em seu leito, no seio da terra.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Menino Vadio (ou Missa de Corpo Presente)

Ele estava sentado ma primeira fila de carteiras na sala de aula, mas não prestava a mínima atenção à aula de gramática que ocorria logo em frente. Ele estava naquela carteira por força das circunstâncias.

A Professora dava, calmamente, a aula para os outros alunos, que e grande maioria, estavam tão desinteressados quanto, senão mais.

Ele sentia o peso de noites mal dormidas abafarem seus ouvidos e embaçarem sua visão, também sentia seus dedos meio dormentes girarem um lápis, fazendo um risco torto no encosto da carteira.

A Professora tentava chamar a atenção da turma, sem muito sucesso. Ele resumiu sua reação ao ato à um olhar seco, um olhar de desprezo e frieza.

Finalmente, ao longe, a sirene reboa ao longe, e a Professora sai. Ele comemora a saída da Professora em seu íntimo, mas esquece que ainda há a aula seguinte.

sábado, 17 de novembro de 2007

Mediocridade (o espelho)

Alice estava rumando para seu quarto, nua, apenas enrolada em uma toalha cor-de-rosa. Era o quarto banho que tomava no dia mas, segundo ela, isso não era futilidade, era questão de chiqueza.

Chega em seu quarto, também cor-de-rosa, e apinhado de roupas que, em sua maioria, sequer foram usadas. Despe-se da toalha, largando-a no chão, e deita-se em sua cama cheia de bichinhos de pelúcia. ao deitar-se, esbarra com as mãos em um embrulho vermelho.

Alice olha intrigada para o embrulho, que jamais tinha visto em seus trinta anos naquela casa. Um embrulho vermelho, quadrado e reluzente; que emanava algo suspeito e encantador. Em uma fútil curiosidade, ela começa a abrir o embrulho.

Ela rasga o papel brilhante, camada por camada, papel por papel, até chegar em uma caixa preta, do tipo que geralmente tem um vestido dentro.

Alice da um gritinho infantil de satisfação e alegria, tinha certeza que seria mais um vestido pra sua coleção, mais u vestido para mofar nos vários armários da casa, sem ela sequer saber de sua existência. Abre a caixa lentamente.

Dentro da caixa não havia nenhum vestido, mas um espelho de prata, envolvido em dezenas de papéis de seda brancos. era um espelho sem nada de especial, um espelho quadrado, com borda lisa, sem enfeites, sem rococó. apenas uma borda branca e fina.

Outro gritinho de felicidade, pois parecia que Alice adorava passar infindáveis horas à frente do espelho. Automaticamente, ela começa a ajeitar o cabelo e frente ao espelho que ganhara, sabe-se lá de quem.

Mas algo a deteve, e esse algo foi seu reflexo.

Seu reflexo a encarava, mas não do mesmo jeito que ela encarava o espelho. o reflexo dava-lhe um olhar duro, gelado e impiedoso; era um olhar de desprezo, como se a censurasse por ser uma tola fútil e inútil.

O espelho cai da mão de Alice, perplexa, estarrecida. a mesma não mais saiu do quarto...