No meio de Abril começava então de fato a estação chuvosa, enchendo o ar de um cheiro nada agradável de terra encardida molhada, e reavivando as preocupações de enchente de uma rua de paralelepípedos perdida numa cidade portuária de um estado esquecido em um país sulamericano. Junto com essa chuva, vinha também uma estranha melancolia no coração do Zero.
Bem, acontece que eu sou Zero, e eu sou notavelmente depressivo. Mas esse Zero sou eu e também não sou; é meio que como se uma outra entidade se apossasse do meu humilde corpo, diferenciando-se do morados original por uma característica comum: a depressão.
A depressão original, a "minha", é amarga, fria e solitária. Ela me abandona nos cantos escuros, com boca amargada e fechada, cenho franzido, e tendo de lirismo apenas a quantidade homérica de música sombria, tristonha e complexa ouvida nesse ínterim. Já a "depressão do Zero", que se inicia com as chuvas de inverno, é de todas a mais bela dentre as depressões do mundo; ela é embebida de um lirismo triste, de olhos decaídos e nublados.
Zero deixa com ela de ser arredio e se esconder, e começa a vagar pelo mundo, esquadrinhando cada detalhe dele com olhos famintos e periciosos, ainda que opacos. É cheia de (pasmem) empolgações, todas de certo modo artísticas: é um interesse reavivado por fotografia, é o garimpo por música nova e inusitada... Mas é principalmente à lira que mais pende este afã. Da caneta esferográfica azul escorrem sonetos de métrica contada no dedo, versos livres descadeirados sob medida, tercetos, heptetos, e outros tantos filhotes do poema brotam dos lábios sempre calados e das mãos sempre afaimadas do Zero do Inverno.
Mas inda assim sente-se o lado amargo do qual advêm o termo dessa melancolia... é um eterno desalento, um incomodo enfado, um coração com o peso do Ósmio e inúmeras dores esburacando-o. Desta vez o que o aflige é a dura solidão, e a brusca vontade de pedir-se de novo ao ex-namorado.
Sofre sim, e muito, o Zero do Inverno, de dar dó e preocupação aos amigos que observam-no de pulsos atados à situação levemente hermética; tanto quanto sofro eu em minha deprimente situação; mas esta poderia passar, caso fosse vencida minha resistência em buscar ajuda profissional e junto fosse ministrada medicação.
Mas que ninguém ouse tocar na tímida depressão do Zero do Inverno, pois sua fugaz e incoerente beleza se vai assim como as belas e gordas rãs marrons das poças dos matagais dos arredores da rua de paralelepípedos, ela se vai com o estiar dos aguaceiros.
sábado, 17 de abril de 2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
Bruxa
Carmem corria desenfreadamente em meio ao matagal, sem ligar pros pés descalços pisando brutamente as pedras encrustadas na lama batida, nem com as ervas venenosas e galhos espinhosos que atacavam seus calcanhares. Corria descalça e desabalada, com o coração quase na garganta e os pulmões em brasa. Corria em fuga, corria com medo.
Em seu encalço, em meio ao arvoredo selvagem que odiava que por ele corressem, vinham três homens com fúria nos olhos, dentes cerrados, e armas nas mãos. Corriam protegidos até o pescoço com roupas pesadas de caça na neve, com suas botas fazendo um ronco surdo ao triturar o solo em passadas duras. De quando em quando um deles bradava: "Não deixem que ela escape!".
Mas correr com medo leva mais longe e mais rápido, e Carmem conseguiu perder-se do seu trio de caçadores, e encontrou um vilarejo. Era mais de meia-noite, e todos dormiam.
Carmem começou a rondar por entre as casas mizeráveis e carcomidas pelo tempo, em busca de onde pudesse se refugiar até que seu coração não mais doesse de medo, e ela pudesse ir embora sem ter de olhar por sobre o ombro, em busca dos homens furiosos com armas em punho.
Nisto sái um menininho, que ia usar o banheiro coletivo.
Os olhos de Carmem e do menino se cruzam, e fixam-se um no outro. Os do menino se enchem de um medo sem explicação, os dela olham o menino da cabeça aos pés, e suas pupilas se dilatam cobiçosamente.
"Não..." Carmem balbucia para si mesma pondo as mãos na cabeça. "Não posso..."
"Não reprima suas vontades... Tu és teu próprio deus neste mundo de alegorias"
Os olhos de Carmem se enchem de uma luz faminta de cobiça, e sua expressão muda de um quase-pânico pra um deleite. Os olhos do menino começam a escorrer tímidas lágrimas de medo. Ele quer correr, quer gritar, mas seu corpo entregou-se ao pavor, e seus joelhos tremem.
Ninguém presenciou o bote que Carmem deu em cima da criança indefesa, nem como ela abriu a nóz de seu tórax; mas em um instante ela tinha o coração ensanguentado da criança sendo rasgado por seus dentes amarelados.
"Boa noite, bruxa" disse uma voz embalsamada de rancor. Carmem, dita bruxa, com os farrapos do coração pequenino nas mãos tintadas de rubro de sangue, olha para onde veio a voz, encarando diretamente o cano fosco de uma carabina.
sábado, 13 de março de 2010
Tortura
Eu tinha acabado de recobrar a consciência, provavelmente tomada por aquele cheiro de hospital que denunciava o éter esfregado nas minhas narinas. Tentei me mexer, mas minhas pernas estavam unidas com fita adesiva náutica, que eu seria incapaz de romper com a minha força vacilante, ainda mais meio chapado. Tudo que eu dava conta de mexer do corpo eram os braços, ainda que imobilizado do ombro ao cotovelo pela mesma infame fita náutica.
Tentei puxar folego pra gritar por alguem, mas assim que fui inspirar senti uma coisa áspera a fina me estrangular a garganta. Procurei tirar esse incomodo obstáculo, mas minhas unhas mal o roçaram; estava tão apertado que, durante meu torpor, seja lá o que fosse, cortara a carne do meu pescoço e se enterrado nele de maneira irremediável.
Olhei para os lados, tentando entender a situação, com o Pãnico enchendo o meu sangue de adrenalina, e cortando o efeito do narcótico. Passando os olhos pelo recinto, via o quarto de motel mais clichê, com tapetes felpudos, cama circular, e espelhos pra todos os lados.
E num desses espelhos, pude me encarar de frente.
Eu estava com a mesma fisionomia bagaceira de sempre, aquele estilo e aparência clássica de motoqueiro barra-pesada; exceto que desta vez estava com o pescoço levemente tinturado de sangue, vindo da ferida que a corda da forca onde eu estava fizera... Espera aí, forca?
Sim, forca, estava numa forca, mas por algum motivo eu não estava pendurado nela, sufocando até a morte. Reagindo involuntariamente tomado de pânico e esperanças de sobrevivencia, comecei a me debater.
A cada movimento espasmódico do meu corpo, se seguiu um som de algo grande raspando o chão. Meus olhos correram pela sala, procurando a fonte do som, até se depararem com o espelho.
Debaixo dos meus pés, me apoiando protegido do enforcamento, estava um grande bloco de gelo.
Eu não conseguia acreditar nos meus olhos, em me ver como ator de um teatro tão cruel, e ao mesmo tempo tão engenhoso. Uma técnica de tortura genial, fazer a pessoa ver seu irremediável fim chegar do ponto de vista de mil espelhos, esperando por horas pelo derretimento de um pedestal de gelo. Quase poético, o fim que algum maníaco elegeu como o meu.
Suspirei, os olhos ameaçando marejar de água, a respiração encurtada pela forca ficando ainda mais curta, resignei-me com o meu destino incomodo, com os braços tão limitados, resignei-me a fumar os vários cigarros que haviam no meu bolso sem remorso algum, agora sabendo que não seriam eles que me matariam.
Tentei puxar folego pra gritar por alguem, mas assim que fui inspirar senti uma coisa áspera a fina me estrangular a garganta. Procurei tirar esse incomodo obstáculo, mas minhas unhas mal o roçaram; estava tão apertado que, durante meu torpor, seja lá o que fosse, cortara a carne do meu pescoço e se enterrado nele de maneira irremediável.
Olhei para os lados, tentando entender a situação, com o Pãnico enchendo o meu sangue de adrenalina, e cortando o efeito do narcótico. Passando os olhos pelo recinto, via o quarto de motel mais clichê, com tapetes felpudos, cama circular, e espelhos pra todos os lados.
E num desses espelhos, pude me encarar de frente.
Eu estava com a mesma fisionomia bagaceira de sempre, aquele estilo e aparência clássica de motoqueiro barra-pesada; exceto que desta vez estava com o pescoço levemente tinturado de sangue, vindo da ferida que a corda da forca onde eu estava fizera... Espera aí, forca?
Sim, forca, estava numa forca, mas por algum motivo eu não estava pendurado nela, sufocando até a morte. Reagindo involuntariamente tomado de pânico e esperanças de sobrevivencia, comecei a me debater.
A cada movimento espasmódico do meu corpo, se seguiu um som de algo grande raspando o chão. Meus olhos correram pela sala, procurando a fonte do som, até se depararem com o espelho.
Debaixo dos meus pés, me apoiando protegido do enforcamento, estava um grande bloco de gelo.
Eu não conseguia acreditar nos meus olhos, em me ver como ator de um teatro tão cruel, e ao mesmo tempo tão engenhoso. Uma técnica de tortura genial, fazer a pessoa ver seu irremediável fim chegar do ponto de vista de mil espelhos, esperando por horas pelo derretimento de um pedestal de gelo. Quase poético, o fim que algum maníaco elegeu como o meu.
Suspirei, os olhos ameaçando marejar de água, a respiração encurtada pela forca ficando ainda mais curta, resignei-me com o meu destino incomodo, com os braços tão limitados, resignei-me a fumar os vários cigarros que haviam no meu bolso sem remorso algum, agora sabendo que não seriam eles que me matariam.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Lírio
A visão da minha janela era sempre cinza, tudo o que eu via era a cidade industrial decadente onde eu vivia, seus telhados cinzentos de amianto cobretos de fuligem escura, as casas encardidas, o asfalto irregular e esburacado, e as pessoas vestindo roupas escuras e puídas, de longas mangas pra suportar o frio glacial do vento que soprava constantemente, aumentando a sensação de desolação das ruas maltrapilhas. Mas ainda assim, por algum motivo, abrí-la e espiar o mundo através dela era a primeira coisa que eu fazia ao acordar, só depois indo comer o frugal desjejum que me serviam no pensionato.
Mas um dia, aconteceu de eu abrir a minha janela, e finalmente encontrar alguma cor entre o céu de nuvens de chumbo e a cidade de fuligem. Num lugar onde até as árvores eram enegrecidas e desfolhadas, nasceu um lírio no beiral de minha janela.
Me faltaram palavras pra exprimir o espanto que tive ao ver tão delicada flor nascer, desviando a rota mecânica e automática que meus olhos percorriam pela floresta de telhados de carvão. Minha primeira reação foi de pura descrença, eu duvidava que algo tão belo e delicado teria nascido em meio aos tijolos fúnebres que compunham a parede, esfreguei os olhos com os punhos pra ter certeza de que não era uma ilusão ou um sonho, e belisquei meu braço pra ter ainda mais certeza.
Mas ele era mais que real, e lá estava, firme, porém delicado.
Longas horas passei admirando-o quando o descobri, até esqueci de descer e tomar o desjejum magro de todo dia. Estava absorto em seus mistérios, queria entender porque ele foi nascer logo na lúgubre cidadela onde eu vivia, quando havia tantos prados ensolarados, e florestas cheias de viço, queria entender como ele reuniu forças pra nascer em meio à densa atmosfera de tristeza e morte que pairava sobre nossas cabeças. Mas o que realmente me intrigava eram suas pétalas.
Elas eram dum branco que jamais tinha visto naquele ambiente poluído, que ao caminhar pro miolo, tornava-se um amarelo intenso, levemente sarapintado de minúsculas sardas castanhas. Mas não era apenas a vivacidade das cores em meio ao mundo tão apagado, mas sim a sensação visual como um todo delas... elas pareciam como que desfocadas, ou envoltas numa aura, quase translúcidas, dependendo do olhar dado à elas. Cheguei a achar que eram de cera, mas jamais toquei-as pra tirar a dúvida; mas meu coração dizia que eram feitas do mesmo material dos sonhos.
Foram dez dias passando as manhãs e o anoitecer contemplando o lírio que nascera no beiral, todo o meu tempo livre era gasto meditando sobre as suas pétalas balançando suaves ao sabor do vento, todas as minhas palavras foram silenciadas pacificamente por sua presença. Tudo o que eu ansiava se direcionava à ele, e se encerrava nele. Poderia até dizer que me apaixonara pelo singelo lírio, pelo meu lírio.
Mas um dia, acordei e avidamente abri a janela para encontrar-me com ele, mas tudo com que me deparei foram seus restos mortais. As pétalas murchas e marrons, o talo acinzentado e mole, a única folha que havia no talo havia sumido. A atmosfera opressora da cidade finalmente fez sucumbir meu único afeto.
Anos se passaram desde que meu lírio se foi, deixando uma inquietude em meu coração; mas ainda abro a janela toda manhã, e rondo a cidade com os olhos secos de quem perdeu a capacidade de chorar mágoas ou felicidades, na esperança de um dia re-encontrar aquela minúscula fagulha de vida em meio à um lugarejo perdido no esquecimento.
Mas um dia, aconteceu de eu abrir a minha janela, e finalmente encontrar alguma cor entre o céu de nuvens de chumbo e a cidade de fuligem. Num lugar onde até as árvores eram enegrecidas e desfolhadas, nasceu um lírio no beiral de minha janela.
Me faltaram palavras pra exprimir o espanto que tive ao ver tão delicada flor nascer, desviando a rota mecânica e automática que meus olhos percorriam pela floresta de telhados de carvão. Minha primeira reação foi de pura descrença, eu duvidava que algo tão belo e delicado teria nascido em meio aos tijolos fúnebres que compunham a parede, esfreguei os olhos com os punhos pra ter certeza de que não era uma ilusão ou um sonho, e belisquei meu braço pra ter ainda mais certeza.
Mas ele era mais que real, e lá estava, firme, porém delicado.
Longas horas passei admirando-o quando o descobri, até esqueci de descer e tomar o desjejum magro de todo dia. Estava absorto em seus mistérios, queria entender porque ele foi nascer logo na lúgubre cidadela onde eu vivia, quando havia tantos prados ensolarados, e florestas cheias de viço, queria entender como ele reuniu forças pra nascer em meio à densa atmosfera de tristeza e morte que pairava sobre nossas cabeças. Mas o que realmente me intrigava eram suas pétalas.
Elas eram dum branco que jamais tinha visto naquele ambiente poluído, que ao caminhar pro miolo, tornava-se um amarelo intenso, levemente sarapintado de minúsculas sardas castanhas. Mas não era apenas a vivacidade das cores em meio ao mundo tão apagado, mas sim a sensação visual como um todo delas... elas pareciam como que desfocadas, ou envoltas numa aura, quase translúcidas, dependendo do olhar dado à elas. Cheguei a achar que eram de cera, mas jamais toquei-as pra tirar a dúvida; mas meu coração dizia que eram feitas do mesmo material dos sonhos.
Foram dez dias passando as manhãs e o anoitecer contemplando o lírio que nascera no beiral, todo o meu tempo livre era gasto meditando sobre as suas pétalas balançando suaves ao sabor do vento, todas as minhas palavras foram silenciadas pacificamente por sua presença. Tudo o que eu ansiava se direcionava à ele, e se encerrava nele. Poderia até dizer que me apaixonara pelo singelo lírio, pelo meu lírio.
Mas um dia, acordei e avidamente abri a janela para encontrar-me com ele, mas tudo com que me deparei foram seus restos mortais. As pétalas murchas e marrons, o talo acinzentado e mole, a única folha que havia no talo havia sumido. A atmosfera opressora da cidade finalmente fez sucumbir meu único afeto.
Anos se passaram desde que meu lírio se foi, deixando uma inquietude em meu coração; mas ainda abro a janela toda manhã, e rondo a cidade com os olhos secos de quem perdeu a capacidade de chorar mágoas ou felicidades, na esperança de um dia re-encontrar aquela minúscula fagulha de vida em meio à um lugarejo perdido no esquecimento.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
A Cor do Mar
Estavamos os dois sentados no alto de um costão rochoso, onde lá embaixo as ondas rebentavam com um vagalhão. Ele olhava animado para todo lado, observando o vôo dos pássaros, olhando os barcos de pescadores passando, tudo com um sorriso doce e extasiado no rosto.
Já eu estava agarrado aos meus joelhos e cabisbaixo, parecia estar olhando para os pequenos crustáceos que perambulavam pelas fendas da rocha onde estavamos mas, na verdade, estava evitando de olhar pra ele, por vergonha, e para mim, por desapontamento. Estava desapontado com minha covardia, por não poder-lhe dizer três palavras tão simples: "eu te amo".
Ainda em meio ao seu êxtase, ele vira e olha pra mim sem motivo aparente; seu cenho se franze ao me ver cabisbaixo em meio à uma cena que ele descreveria como não menos que "fantástica".
"De que cor você vê o mar?" ele me pergunta após muito me fitar intrigado e de cenho franzido.
Eu respondo, após um breve momento em silêncio pra absorver a surpresa dessa pergunta inusitada, dizendo que o via cinza, já que estavamos num dia completamente nublado e ventoso. Quase que um espelho trincado.
Ele balançou a cabeça negativamente, mas sem deixar esmorecer o sorriso, e me retruca logo em seguida, "o mar está vividamente azul".
Eu discordava completamente, mas não ia treplicar, eu não conseguia discutir com ele jamais, ainda mais com aquele sorriso doce que afoga as palavras. Soltei apenas um "ahn?" pra ver o que ele diria.
"O mar, assim como o resto do mundo, não foi feito para ser visto somente com os olhos, quantificado, medido, classificado, posto em amostras e exsicatas e analisado em laboratórios. Ele não é só cores e formas, elementos e energia, teias e ciclos, biomas e estratos... O mundo, acima de tudo, é feito de impressões e sentimentos."
Isso me soava um pouco estranho, desde que cresci filho de um químico e uma geóloga, acostumado a ver o mundo ser desenhado como reações e aglomerados de sedimentos, e por estar ingressando na biologia, começando a enxergar o mundo como um campo de batalha onde se competia arduamente para passar seu código genético à frente. Fiquei em silêncio, e foi minha vez de olhá-lo de cenho franzido, mas sem emergir completamente do emaranhado dos meus braços, pra não mostrar que estava corando ao fitá-lo.
"As pessoas estão acostumadas a olhar o mundo como físico e palpável, por isso dizem que há lugares bonitos, lugares sem atrativos, e até lugares feios. Mas elas esquecem que o mundo é primordialmente uma coisa".
Murmurei "o que seria então?", mas meus braços abafaram a fala, e tudo o que ele deve ter ouvido foi um murmúrio surdo.
Ele se virou pra mim, olhou com olhos firmes em direção aos meus, mas o sorriso ainda doce e encantador, agarrou minha mão e a levou até seu peito. No instante que minha mão passou unida a ele, seu coração batia fortemente.
"É amor"
Corei ainda mais, mas não tinha mais meus braços pra me proteger da visão dele.
"É preciso amor pra ver do que o mundo é feito, e sua verdadeira forma. É por tê-lo que posso enxergar a essência das coisas".
"Tê-lo o quê?" eu perguntei, ainda muito vermelho, e voz vacilando.
Ele não me respondeu nada, apenas sorria ainda mais intensamente, e juntou se rosto ao meu, de olhos fechados. Juntei-me à ele nesse passeio de olhos fechados, pois não precisava sequer abrí-los pra ver que o mar estava límpido, num tom intenso de azul
Já eu estava agarrado aos meus joelhos e cabisbaixo, parecia estar olhando para os pequenos crustáceos que perambulavam pelas fendas da rocha onde estavamos mas, na verdade, estava evitando de olhar pra ele, por vergonha, e para mim, por desapontamento. Estava desapontado com minha covardia, por não poder-lhe dizer três palavras tão simples: "eu te amo".
Ainda em meio ao seu êxtase, ele vira e olha pra mim sem motivo aparente; seu cenho se franze ao me ver cabisbaixo em meio à uma cena que ele descreveria como não menos que "fantástica".
"De que cor você vê o mar?" ele me pergunta após muito me fitar intrigado e de cenho franzido.
Eu respondo, após um breve momento em silêncio pra absorver a surpresa dessa pergunta inusitada, dizendo que o via cinza, já que estavamos num dia completamente nublado e ventoso. Quase que um espelho trincado.
Ele balançou a cabeça negativamente, mas sem deixar esmorecer o sorriso, e me retruca logo em seguida, "o mar está vividamente azul".
Eu discordava completamente, mas não ia treplicar, eu não conseguia discutir com ele jamais, ainda mais com aquele sorriso doce que afoga as palavras. Soltei apenas um "ahn?" pra ver o que ele diria.
"O mar, assim como o resto do mundo, não foi feito para ser visto somente com os olhos, quantificado, medido, classificado, posto em amostras e exsicatas e analisado em laboratórios. Ele não é só cores e formas, elementos e energia, teias e ciclos, biomas e estratos... O mundo, acima de tudo, é feito de impressões e sentimentos."
Isso me soava um pouco estranho, desde que cresci filho de um químico e uma geóloga, acostumado a ver o mundo ser desenhado como reações e aglomerados de sedimentos, e por estar ingressando na biologia, começando a enxergar o mundo como um campo de batalha onde se competia arduamente para passar seu código genético à frente. Fiquei em silêncio, e foi minha vez de olhá-lo de cenho franzido, mas sem emergir completamente do emaranhado dos meus braços, pra não mostrar que estava corando ao fitá-lo.
"As pessoas estão acostumadas a olhar o mundo como físico e palpável, por isso dizem que há lugares bonitos, lugares sem atrativos, e até lugares feios. Mas elas esquecem que o mundo é primordialmente uma coisa".
Murmurei "o que seria então?", mas meus braços abafaram a fala, e tudo o que ele deve ter ouvido foi um murmúrio surdo.
Ele se virou pra mim, olhou com olhos firmes em direção aos meus, mas o sorriso ainda doce e encantador, agarrou minha mão e a levou até seu peito. No instante que minha mão passou unida a ele, seu coração batia fortemente.
"É amor"
Corei ainda mais, mas não tinha mais meus braços pra me proteger da visão dele.
"É preciso amor pra ver do que o mundo é feito, e sua verdadeira forma. É por tê-lo que posso enxergar a essência das coisas".
"Tê-lo o quê?" eu perguntei, ainda muito vermelho, e voz vacilando.
Ele não me respondeu nada, apenas sorria ainda mais intensamente, e juntou se rosto ao meu, de olhos fechados. Juntei-me à ele nesse passeio de olhos fechados, pois não precisava sequer abrí-los pra ver que o mar estava límpido, num tom intenso de azul
sábado, 28 de novembro de 2009
Du Og Meg
Obs.: isso aqui não é pura criação minha, é uma tentativa de transformar "Du Og Meg", de Of Montreal, em conto. Não sei se deu certo, avaliar isso eu deixo pra vocês.
Elisa parecia não estar lá, mas milhas ao sul, navegando um alísio oportuno... mas ninguém parecia dar muito cabimento a isso. Ninguém parecia notar seu cenho franzido, seus olhos enevoados vagando no nada, nem o sorriso incerto, rompido vez ou outra por um suspiro adocicado.
Ela estava longe, num outro país, buscando por um par de olhos que iluminassem os seus, e uma boca pra sorrir em par com a sua... mais ainda, ela procurava por um em especial, ela procurava por Simas.
Um dia, ela estufou o peito, firmou os olhos, e decidiu não suspirar mais. Mochila nas costas, bilhete no espelho, e embarcou num avião, fingindo não sentir o tenso calafrio que percorreu sua espinha quando alçou vôo em direção ao extrangeiro, em busca da solução aos seus suspiros.
Ela desceu direto da sexta fila, assento da janela, para os tão desejados braços , e as nuvens em seus olhos se desfizeram numa chuva morna no peito de Simas. Estava lá, e agora ia com ele pra onde fosse.
Simas empunhava um baixo, tinha uma banda começando a despontar, e viajava com uma trupe de hypes numa perua, tocando em inferninhos e festivais desconhecidos, e Elisa viajando com eles... a vida parecia um sonho, parecia.
Ela foi posta pra fora do país, afinal, impérios do mal não são realmente permissivos, e o feliz casal foi desfeito.
Ela foi, mas ele não ficou... com seu irmão e seus pais, ele disse que a amava, e que se casariam no verão, por isso ia até ela, como ela já fez uma vez.
Elisa parecia não estar lá, mas milhas ao sul, navegando um alísio oportuno... mas ninguém parecia dar muito cabimento a isso. Ninguém parecia notar seu cenho franzido, seus olhos enevoados vagando no nada, nem o sorriso incerto, rompido vez ou outra por um suspiro adocicado.
Ela estava longe, num outro país, buscando por um par de olhos que iluminassem os seus, e uma boca pra sorrir em par com a sua... mais ainda, ela procurava por um em especial, ela procurava por Simas.
Um dia, ela estufou o peito, firmou os olhos, e decidiu não suspirar mais. Mochila nas costas, bilhete no espelho, e embarcou num avião, fingindo não sentir o tenso calafrio que percorreu sua espinha quando alçou vôo em direção ao extrangeiro, em busca da solução aos seus suspiros.
Ela desceu direto da sexta fila, assento da janela, para os tão desejados braços , e as nuvens em seus olhos se desfizeram numa chuva morna no peito de Simas. Estava lá, e agora ia com ele pra onde fosse.
Simas empunhava um baixo, tinha uma banda começando a despontar, e viajava com uma trupe de hypes numa perua, tocando em inferninhos e festivais desconhecidos, e Elisa viajando com eles... a vida parecia um sonho, parecia.
Ela foi posta pra fora do país, afinal, impérios do mal não são realmente permissivos, e o feliz casal foi desfeito.
Ela foi, mas ele não ficou... com seu irmão e seus pais, ele disse que a amava, e que se casariam no verão, por isso ia até ela, como ela já fez uma vez.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Troco
o mundo para ele agora era aquele copo, e o besouro verde esmeraldino se debatendo em sua parede interna, persistindo em uma situação sem rotas de fuga. uma voz perdida no salão fora de foco pedia, ou melhor, ordenava, que ele deixasse o pobre inseto ir. sem sucesso.
seus olhos estavam fixos nas patas finas do inseto tentando galgar o vidro, nos hélitros que se debatiam numa tentativa frustrada de içar vôo para longe da prisão vítrea do copo de requeijão emborcado. indiferente ao sofrimento que com certeza o pobre coleóptero passava, ele se divertia com um sorriso largo empurrando pra cima as maçãs do rosto, e com um brilho quase demente iluminando as pupilas dos olhos cor-de-mel.
eventualmente, ele se cansou, por ora, de observar o claustro do besouro. ergueu o copo com a mão tampando incompletamente a abertura, virou o copo ao contrário pra renovar o ar, e mais uma vez o apoiou na mesa, mantendo o prisioneiro por uma noite de xadrez.
sono solto, e no dia seguinte acorda com os olhos embaçados de sono e remela, mas já sente algo distinto ao seu redor. põe-se de pé na cama, mas não fica. sua cabeça bate em algo, e ele quica de volta pra cama, confuso.
o teto estava baixo como jamais estivera, as janelas, hermeticamente fechadas, e a porta desaparecera em meio ao papel de parede.
levanta-se de gatinhas, e vai até as paredes, tateia-as como em busca de algo, os olhos correm pelos quatro cantos do aposento anormalmente pequeno, até que se deparam novamente com a janela, e ele engasga uma indescritível interjeição de susto.
bem no vidro da janela, que estava fechada e vedada, havia um rostro verde brilhante, com olhos grandes de contas tomando totalmente os lados da cabeça, e duas antenas oscilantes. até uma pata fina e comprida, cheia de espinhos e pêlos se dispoz a batucar.
seus olhos estavam fixos nas patas finas do inseto tentando galgar o vidro, nos hélitros que se debatiam numa tentativa frustrada de içar vôo para longe da prisão vítrea do copo de requeijão emborcado. indiferente ao sofrimento que com certeza o pobre coleóptero passava, ele se divertia com um sorriso largo empurrando pra cima as maçãs do rosto, e com um brilho quase demente iluminando as pupilas dos olhos cor-de-mel.
eventualmente, ele se cansou, por ora, de observar o claustro do besouro. ergueu o copo com a mão tampando incompletamente a abertura, virou o copo ao contrário pra renovar o ar, e mais uma vez o apoiou na mesa, mantendo o prisioneiro por uma noite de xadrez.
sono solto, e no dia seguinte acorda com os olhos embaçados de sono e remela, mas já sente algo distinto ao seu redor. põe-se de pé na cama, mas não fica. sua cabeça bate em algo, e ele quica de volta pra cama, confuso.
o teto estava baixo como jamais estivera, as janelas, hermeticamente fechadas, e a porta desaparecera em meio ao papel de parede.
levanta-se de gatinhas, e vai até as paredes, tateia-as como em busca de algo, os olhos correm pelos quatro cantos do aposento anormalmente pequeno, até que se deparam novamente com a janela, e ele engasga uma indescritível interjeição de susto.
bem no vidro da janela, que estava fechada e vedada, havia um rostro verde brilhante, com olhos grandes de contas tomando totalmente os lados da cabeça, e duas antenas oscilantes. até uma pata fina e comprida, cheia de espinhos e pêlos se dispoz a batucar.
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