A visão da minha janela era sempre cinza, tudo o que eu via era a cidade industrial decadente onde eu vivia, seus telhados cinzentos de amianto cobretos de fuligem escura, as casas encardidas, o asfalto irregular e esburacado, e as pessoas vestindo roupas escuras e puídas, de longas mangas pra suportar o frio glacial do vento que soprava constantemente, aumentando a sensação de desolação das ruas maltrapilhas. Mas ainda assim, por algum motivo, abrí-la e espiar o mundo através dela era a primeira coisa que eu fazia ao acordar, só depois indo comer o frugal desjejum que me serviam no pensionato.
Mas um dia, aconteceu de eu abrir a minha janela, e finalmente encontrar alguma cor entre o céu de nuvens de chumbo e a cidade de fuligem. Num lugar onde até as árvores eram enegrecidas e desfolhadas, nasceu um lírio no beiral de minha janela.
Me faltaram palavras pra exprimir o espanto que tive ao ver tão delicada flor nascer, desviando a rota mecânica e automática que meus olhos percorriam pela floresta de telhados de carvão. Minha primeira reação foi de pura descrença, eu duvidava que algo tão belo e delicado teria nascido em meio aos tijolos fúnebres que compunham a parede, esfreguei os olhos com os punhos pra ter certeza de que não era uma ilusão ou um sonho, e belisquei meu braço pra ter ainda mais certeza.
Mas ele era mais que real, e lá estava, firme, porém delicado.
Longas horas passei admirando-o quando o descobri, até esqueci de descer e tomar o desjejum magro de todo dia. Estava absorto em seus mistérios, queria entender porque ele foi nascer logo na lúgubre cidadela onde eu vivia, quando havia tantos prados ensolarados, e florestas cheias de viço, queria entender como ele reuniu forças pra nascer em meio à densa atmosfera de tristeza e morte que pairava sobre nossas cabeças. Mas o que realmente me intrigava eram suas pétalas.
Elas eram dum branco que jamais tinha visto naquele ambiente poluído, que ao caminhar pro miolo, tornava-se um amarelo intenso, levemente sarapintado de minúsculas sardas castanhas. Mas não era apenas a vivacidade das cores em meio ao mundo tão apagado, mas sim a sensação visual como um todo delas... elas pareciam como que desfocadas, ou envoltas numa aura, quase translúcidas, dependendo do olhar dado à elas. Cheguei a achar que eram de cera, mas jamais toquei-as pra tirar a dúvida; mas meu coração dizia que eram feitas do mesmo material dos sonhos.
Foram dez dias passando as manhãs e o anoitecer contemplando o lírio que nascera no beiral, todo o meu tempo livre era gasto meditando sobre as suas pétalas balançando suaves ao sabor do vento, todas as minhas palavras foram silenciadas pacificamente por sua presença. Tudo o que eu ansiava se direcionava à ele, e se encerrava nele. Poderia até dizer que me apaixonara pelo singelo lírio, pelo meu lírio.
Mas um dia, acordei e avidamente abri a janela para encontrar-me com ele, mas tudo com que me deparei foram seus restos mortais. As pétalas murchas e marrons, o talo acinzentado e mole, a única folha que havia no talo havia sumido. A atmosfera opressora da cidade finalmente fez sucumbir meu único afeto.
Anos se passaram desde que meu lírio se foi, deixando uma inquietude em meu coração; mas ainda abro a janela toda manhã, e rondo a cidade com os olhos secos de quem perdeu a capacidade de chorar mágoas ou felicidades, na esperança de um dia re-encontrar aquela minúscula fagulha de vida em meio à um lugarejo perdido no esquecimento.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
A Cor do Mar
Estavamos os dois sentados no alto de um costão rochoso, onde lá embaixo as ondas rebentavam com um vagalhão. Ele olhava animado para todo lado, observando o vôo dos pássaros, olhando os barcos de pescadores passando, tudo com um sorriso doce e extasiado no rosto.
Já eu estava agarrado aos meus joelhos e cabisbaixo, parecia estar olhando para os pequenos crustáceos que perambulavam pelas fendas da rocha onde estavamos mas, na verdade, estava evitando de olhar pra ele, por vergonha, e para mim, por desapontamento. Estava desapontado com minha covardia, por não poder-lhe dizer três palavras tão simples: "eu te amo".
Ainda em meio ao seu êxtase, ele vira e olha pra mim sem motivo aparente; seu cenho se franze ao me ver cabisbaixo em meio à uma cena que ele descreveria como não menos que "fantástica".
"De que cor você vê o mar?" ele me pergunta após muito me fitar intrigado e de cenho franzido.
Eu respondo, após um breve momento em silêncio pra absorver a surpresa dessa pergunta inusitada, dizendo que o via cinza, já que estavamos num dia completamente nublado e ventoso. Quase que um espelho trincado.
Ele balançou a cabeça negativamente, mas sem deixar esmorecer o sorriso, e me retruca logo em seguida, "o mar está vividamente azul".
Eu discordava completamente, mas não ia treplicar, eu não conseguia discutir com ele jamais, ainda mais com aquele sorriso doce que afoga as palavras. Soltei apenas um "ahn?" pra ver o que ele diria.
"O mar, assim como o resto do mundo, não foi feito para ser visto somente com os olhos, quantificado, medido, classificado, posto em amostras e exsicatas e analisado em laboratórios. Ele não é só cores e formas, elementos e energia, teias e ciclos, biomas e estratos... O mundo, acima de tudo, é feito de impressões e sentimentos."
Isso me soava um pouco estranho, desde que cresci filho de um químico e uma geóloga, acostumado a ver o mundo ser desenhado como reações e aglomerados de sedimentos, e por estar ingressando na biologia, começando a enxergar o mundo como um campo de batalha onde se competia arduamente para passar seu código genético à frente. Fiquei em silêncio, e foi minha vez de olhá-lo de cenho franzido, mas sem emergir completamente do emaranhado dos meus braços, pra não mostrar que estava corando ao fitá-lo.
"As pessoas estão acostumadas a olhar o mundo como físico e palpável, por isso dizem que há lugares bonitos, lugares sem atrativos, e até lugares feios. Mas elas esquecem que o mundo é primordialmente uma coisa".
Murmurei "o que seria então?", mas meus braços abafaram a fala, e tudo o que ele deve ter ouvido foi um murmúrio surdo.
Ele se virou pra mim, olhou com olhos firmes em direção aos meus, mas o sorriso ainda doce e encantador, agarrou minha mão e a levou até seu peito. No instante que minha mão passou unida a ele, seu coração batia fortemente.
"É amor"
Corei ainda mais, mas não tinha mais meus braços pra me proteger da visão dele.
"É preciso amor pra ver do que o mundo é feito, e sua verdadeira forma. É por tê-lo que posso enxergar a essência das coisas".
"Tê-lo o quê?" eu perguntei, ainda muito vermelho, e voz vacilando.
Ele não me respondeu nada, apenas sorria ainda mais intensamente, e juntou se rosto ao meu, de olhos fechados. Juntei-me à ele nesse passeio de olhos fechados, pois não precisava sequer abrí-los pra ver que o mar estava límpido, num tom intenso de azul
Já eu estava agarrado aos meus joelhos e cabisbaixo, parecia estar olhando para os pequenos crustáceos que perambulavam pelas fendas da rocha onde estavamos mas, na verdade, estava evitando de olhar pra ele, por vergonha, e para mim, por desapontamento. Estava desapontado com minha covardia, por não poder-lhe dizer três palavras tão simples: "eu te amo".
Ainda em meio ao seu êxtase, ele vira e olha pra mim sem motivo aparente; seu cenho se franze ao me ver cabisbaixo em meio à uma cena que ele descreveria como não menos que "fantástica".
"De que cor você vê o mar?" ele me pergunta após muito me fitar intrigado e de cenho franzido.
Eu respondo, após um breve momento em silêncio pra absorver a surpresa dessa pergunta inusitada, dizendo que o via cinza, já que estavamos num dia completamente nublado e ventoso. Quase que um espelho trincado.
Ele balançou a cabeça negativamente, mas sem deixar esmorecer o sorriso, e me retruca logo em seguida, "o mar está vividamente azul".
Eu discordava completamente, mas não ia treplicar, eu não conseguia discutir com ele jamais, ainda mais com aquele sorriso doce que afoga as palavras. Soltei apenas um "ahn?" pra ver o que ele diria.
"O mar, assim como o resto do mundo, não foi feito para ser visto somente com os olhos, quantificado, medido, classificado, posto em amostras e exsicatas e analisado em laboratórios. Ele não é só cores e formas, elementos e energia, teias e ciclos, biomas e estratos... O mundo, acima de tudo, é feito de impressões e sentimentos."
Isso me soava um pouco estranho, desde que cresci filho de um químico e uma geóloga, acostumado a ver o mundo ser desenhado como reações e aglomerados de sedimentos, e por estar ingressando na biologia, começando a enxergar o mundo como um campo de batalha onde se competia arduamente para passar seu código genético à frente. Fiquei em silêncio, e foi minha vez de olhá-lo de cenho franzido, mas sem emergir completamente do emaranhado dos meus braços, pra não mostrar que estava corando ao fitá-lo.
"As pessoas estão acostumadas a olhar o mundo como físico e palpável, por isso dizem que há lugares bonitos, lugares sem atrativos, e até lugares feios. Mas elas esquecem que o mundo é primordialmente uma coisa".
Murmurei "o que seria então?", mas meus braços abafaram a fala, e tudo o que ele deve ter ouvido foi um murmúrio surdo.
Ele se virou pra mim, olhou com olhos firmes em direção aos meus, mas o sorriso ainda doce e encantador, agarrou minha mão e a levou até seu peito. No instante que minha mão passou unida a ele, seu coração batia fortemente.
"É amor"
Corei ainda mais, mas não tinha mais meus braços pra me proteger da visão dele.
"É preciso amor pra ver do que o mundo é feito, e sua verdadeira forma. É por tê-lo que posso enxergar a essência das coisas".
"Tê-lo o quê?" eu perguntei, ainda muito vermelho, e voz vacilando.
Ele não me respondeu nada, apenas sorria ainda mais intensamente, e juntou se rosto ao meu, de olhos fechados. Juntei-me à ele nesse passeio de olhos fechados, pois não precisava sequer abrí-los pra ver que o mar estava límpido, num tom intenso de azul
sábado, 28 de novembro de 2009
Du Og Meg
Obs.: isso aqui não é pura criação minha, é uma tentativa de transformar "Du Og Meg", de Of Montreal, em conto. Não sei se deu certo, avaliar isso eu deixo pra vocês.
Elisa parecia não estar lá, mas milhas ao sul, navegando um alísio oportuno... mas ninguém parecia dar muito cabimento a isso. Ninguém parecia notar seu cenho franzido, seus olhos enevoados vagando no nada, nem o sorriso incerto, rompido vez ou outra por um suspiro adocicado.
Ela estava longe, num outro país, buscando por um par de olhos que iluminassem os seus, e uma boca pra sorrir em par com a sua... mais ainda, ela procurava por um em especial, ela procurava por Simas.
Um dia, ela estufou o peito, firmou os olhos, e decidiu não suspirar mais. Mochila nas costas, bilhete no espelho, e embarcou num avião, fingindo não sentir o tenso calafrio que percorreu sua espinha quando alçou vôo em direção ao extrangeiro, em busca da solução aos seus suspiros.
Ela desceu direto da sexta fila, assento da janela, para os tão desejados braços , e as nuvens em seus olhos se desfizeram numa chuva morna no peito de Simas. Estava lá, e agora ia com ele pra onde fosse.
Simas empunhava um baixo, tinha uma banda começando a despontar, e viajava com uma trupe de hypes numa perua, tocando em inferninhos e festivais desconhecidos, e Elisa viajando com eles... a vida parecia um sonho, parecia.
Ela foi posta pra fora do país, afinal, impérios do mal não são realmente permissivos, e o feliz casal foi desfeito.
Ela foi, mas ele não ficou... com seu irmão e seus pais, ele disse que a amava, e que se casariam no verão, por isso ia até ela, como ela já fez uma vez.
Elisa parecia não estar lá, mas milhas ao sul, navegando um alísio oportuno... mas ninguém parecia dar muito cabimento a isso. Ninguém parecia notar seu cenho franzido, seus olhos enevoados vagando no nada, nem o sorriso incerto, rompido vez ou outra por um suspiro adocicado.
Ela estava longe, num outro país, buscando por um par de olhos que iluminassem os seus, e uma boca pra sorrir em par com a sua... mais ainda, ela procurava por um em especial, ela procurava por Simas.
Um dia, ela estufou o peito, firmou os olhos, e decidiu não suspirar mais. Mochila nas costas, bilhete no espelho, e embarcou num avião, fingindo não sentir o tenso calafrio que percorreu sua espinha quando alçou vôo em direção ao extrangeiro, em busca da solução aos seus suspiros.
Ela desceu direto da sexta fila, assento da janela, para os tão desejados braços , e as nuvens em seus olhos se desfizeram numa chuva morna no peito de Simas. Estava lá, e agora ia com ele pra onde fosse.
Simas empunhava um baixo, tinha uma banda começando a despontar, e viajava com uma trupe de hypes numa perua, tocando em inferninhos e festivais desconhecidos, e Elisa viajando com eles... a vida parecia um sonho, parecia.
Ela foi posta pra fora do país, afinal, impérios do mal não são realmente permissivos, e o feliz casal foi desfeito.
Ela foi, mas ele não ficou... com seu irmão e seus pais, ele disse que a amava, e que se casariam no verão, por isso ia até ela, como ela já fez uma vez.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Troco
o mundo para ele agora era aquele copo, e o besouro verde esmeraldino se debatendo em sua parede interna, persistindo em uma situação sem rotas de fuga. uma voz perdida no salão fora de foco pedia, ou melhor, ordenava, que ele deixasse o pobre inseto ir. sem sucesso.
seus olhos estavam fixos nas patas finas do inseto tentando galgar o vidro, nos hélitros que se debatiam numa tentativa frustrada de içar vôo para longe da prisão vítrea do copo de requeijão emborcado. indiferente ao sofrimento que com certeza o pobre coleóptero passava, ele se divertia com um sorriso largo empurrando pra cima as maçãs do rosto, e com um brilho quase demente iluminando as pupilas dos olhos cor-de-mel.
eventualmente, ele se cansou, por ora, de observar o claustro do besouro. ergueu o copo com a mão tampando incompletamente a abertura, virou o copo ao contrário pra renovar o ar, e mais uma vez o apoiou na mesa, mantendo o prisioneiro por uma noite de xadrez.
sono solto, e no dia seguinte acorda com os olhos embaçados de sono e remela, mas já sente algo distinto ao seu redor. põe-se de pé na cama, mas não fica. sua cabeça bate em algo, e ele quica de volta pra cama, confuso.
o teto estava baixo como jamais estivera, as janelas, hermeticamente fechadas, e a porta desaparecera em meio ao papel de parede.
levanta-se de gatinhas, e vai até as paredes, tateia-as como em busca de algo, os olhos correm pelos quatro cantos do aposento anormalmente pequeno, até que se deparam novamente com a janela, e ele engasga uma indescritível interjeição de susto.
bem no vidro da janela, que estava fechada e vedada, havia um rostro verde brilhante, com olhos grandes de contas tomando totalmente os lados da cabeça, e duas antenas oscilantes. até uma pata fina e comprida, cheia de espinhos e pêlos se dispoz a batucar.
seus olhos estavam fixos nas patas finas do inseto tentando galgar o vidro, nos hélitros que se debatiam numa tentativa frustrada de içar vôo para longe da prisão vítrea do copo de requeijão emborcado. indiferente ao sofrimento que com certeza o pobre coleóptero passava, ele se divertia com um sorriso largo empurrando pra cima as maçãs do rosto, e com um brilho quase demente iluminando as pupilas dos olhos cor-de-mel.
eventualmente, ele se cansou, por ora, de observar o claustro do besouro. ergueu o copo com a mão tampando incompletamente a abertura, virou o copo ao contrário pra renovar o ar, e mais uma vez o apoiou na mesa, mantendo o prisioneiro por uma noite de xadrez.
sono solto, e no dia seguinte acorda com os olhos embaçados de sono e remela, mas já sente algo distinto ao seu redor. põe-se de pé na cama, mas não fica. sua cabeça bate em algo, e ele quica de volta pra cama, confuso.
o teto estava baixo como jamais estivera, as janelas, hermeticamente fechadas, e a porta desaparecera em meio ao papel de parede.
levanta-se de gatinhas, e vai até as paredes, tateia-as como em busca de algo, os olhos correm pelos quatro cantos do aposento anormalmente pequeno, até que se deparam novamente com a janela, e ele engasga uma indescritível interjeição de susto.
bem no vidro da janela, que estava fechada e vedada, havia um rostro verde brilhante, com olhos grandes de contas tomando totalmente os lados da cabeça, e duas antenas oscilantes. até uma pata fina e comprida, cheia de espinhos e pêlos se dispoz a batucar.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
No Café
Eles se encontraram num café colonial numa cidadezinha européia perdida.
Ele trajava roupas que deixavam a entender que não pertencia a lugar algum, ela se vestia com mochileira, mas tinha sua pátria estampada no casaco leve que trazia a tiracolo.
Ele pediu um espresso e ficou olhando pras fotos branco-e-preto que forravam as paredes de tijolos vermelhos, ela pediu um Martini e ficou brincando com a azeitona empalada no palito de dentes.
E então seus olhares se cruzaram.
Ele sorriu, mas disfarçou logo, não queria deixar muito óbvio o que vira, ela ficou enrubescida, afundou o olhar no martini, com as mãos tremendo de leve, mas não conseguia evitar de levantar o olhar e vislumbrá-lo mais uma vez, só pra enrubescer mais ainda.
Ficaram uns instantes, cada um em sí, alinhando os pensamentos. o silêncio do local vazio ecoava nas paredes vermelhas e ásperas. um suspiro estremeceu no peito de cada um. e ele se levanta e sái.
Ela dá mais um suspiro, alto e desconsolado, e remexe fortemente o Martini com a azeitona empalada, como se estivesse descontando a raiva. de repente ela houve uma lufada de vento que entra quando a porta se abre novamente. era ele.
Ele começa a andar vacilante na direção da mesa dela, e ela começa a enrubescer mais ainda, quase mergulhando na taça que segurava nas mãos, pensando no que iria dizer se ele chegasse e sentasse.
Ele pergunta, com a voz vacilante, se poderia se sentar com ela. ela engrola as palavras por uns instantes, mas controla a gagueira e concede, com um sorriso tímido, mas iluminado, a companhia.
Ele tenta puxar papo, fala de amenidades clichê, do tempo, do charme colonial da cidadela de ruas estreitas e casinhas de tijolo e pedra. ela responde com monossílabos acanhados, mas sem tirar aquele arranjo de dentes brancos e lábios carmim da forma de um sorriso. a conversa flui e ela começa a se soltar um pouco; começam a falar dos motivos de estarem lá.
Ele não tinha passado, ela só tinha arrependimentos.
Mas seus olhos ignoraram o passado, e se fizeram pincéis, pra traçar o presente.
O café é repentinamente é tomado duma luminosidade amarela e de uma música local, permeada de um acordeón choroso. não tinham notado o tempo passar durante a conversa, e agora escureceu lá fora, o café acendeu os lampiões e colocou um velho gramofone pra rodar. eles se entreolharam novamente, agora de perto, e foi a vez dele de sorrir acanhado.
Pôs a mão no paletó que vestia, e de dentro tirou uma camélia, que tinha ido colher num canteiro na rua, e estendeu-a à ela, sorriu de leve e pediu-lhe uma dança.
Ele trajava roupas que deixavam a entender que não pertencia a lugar algum, ela se vestia com mochileira, mas tinha sua pátria estampada no casaco leve que trazia a tiracolo.
Ele pediu um espresso e ficou olhando pras fotos branco-e-preto que forravam as paredes de tijolos vermelhos, ela pediu um Martini e ficou brincando com a azeitona empalada no palito de dentes.
E então seus olhares se cruzaram.
Ele sorriu, mas disfarçou logo, não queria deixar muito óbvio o que vira, ela ficou enrubescida, afundou o olhar no martini, com as mãos tremendo de leve, mas não conseguia evitar de levantar o olhar e vislumbrá-lo mais uma vez, só pra enrubescer mais ainda.
Ficaram uns instantes, cada um em sí, alinhando os pensamentos. o silêncio do local vazio ecoava nas paredes vermelhas e ásperas. um suspiro estremeceu no peito de cada um. e ele se levanta e sái.
Ela dá mais um suspiro, alto e desconsolado, e remexe fortemente o Martini com a azeitona empalada, como se estivesse descontando a raiva. de repente ela houve uma lufada de vento que entra quando a porta se abre novamente. era ele.
Ele começa a andar vacilante na direção da mesa dela, e ela começa a enrubescer mais ainda, quase mergulhando na taça que segurava nas mãos, pensando no que iria dizer se ele chegasse e sentasse.
Ele pergunta, com a voz vacilante, se poderia se sentar com ela. ela engrola as palavras por uns instantes, mas controla a gagueira e concede, com um sorriso tímido, mas iluminado, a companhia.
Ele tenta puxar papo, fala de amenidades clichê, do tempo, do charme colonial da cidadela de ruas estreitas e casinhas de tijolo e pedra. ela responde com monossílabos acanhados, mas sem tirar aquele arranjo de dentes brancos e lábios carmim da forma de um sorriso. a conversa flui e ela começa a se soltar um pouco; começam a falar dos motivos de estarem lá.
Ele não tinha passado, ela só tinha arrependimentos.
Mas seus olhos ignoraram o passado, e se fizeram pincéis, pra traçar o presente.
O café é repentinamente é tomado duma luminosidade amarela e de uma música local, permeada de um acordeón choroso. não tinham notado o tempo passar durante a conversa, e agora escureceu lá fora, o café acendeu os lampiões e colocou um velho gramofone pra rodar. eles se entreolharam novamente, agora de perto, e foi a vez dele de sorrir acanhado.
Pôs a mão no paletó que vestia, e de dentro tirou uma camélia, que tinha ido colher num canteiro na rua, e estendeu-a à ela, sorriu de leve e pediu-lhe uma dança.
domingo, 21 de junho de 2009
Nós Nascemos Narcisistas Novamente
Vivíamos vidas virtuosas, regradas e, ainda assim, tristes e enfadonhas. Resolvemos morrer então.
Nascemos outra vez. Nascemos Novamente com o dom maravilhoso de Narciso, e a felicidade rebentava em nossas têmporas.
Nascemos Novamente Narcisistas, somos perfeito, imaculado, divino. Desinteressa-nos o resto, o que é feio, o que desagrada. Nosso mundo se limita pela nossa tez acetinada, extendendo-se até a ponta de nossos dedos, ou um pouco mais, se este tocarem o espelho
Oh, o espelho... Este sim, uma verdadeira maravilha... "Mostra-nos o que é belo e perfeito, ó espelho", dí-lo em frente a ele e abre os olhos, e verás que ele é o único verdadeiro gênio fantástico neste mundo.
Nascemos Novamente Narcisistas, uma vida parnasiana, bela, doce, digna de ser vista por nossos olhos vítreos, e de ser vivida e gozada por nossos corpos apolíneos. Somos perfeitos, somos angelicais, somos divinos, somos eternos...
E também somos ingênuos
Nascemos outra vez. Nascemos Novamente com o dom maravilhoso de Narciso, e a felicidade rebentava em nossas têmporas.
Nascemos Novamente Narcisistas, somos perfeito, imaculado, divino. Desinteressa-nos o resto, o que é feio, o que desagrada. Nosso mundo se limita pela nossa tez acetinada, extendendo-se até a ponta de nossos dedos, ou um pouco mais, se este tocarem o espelho
Oh, o espelho... Este sim, uma verdadeira maravilha... "Mostra-nos o que é belo e perfeito, ó espelho", dí-lo em frente a ele e abre os olhos, e verás que ele é o único verdadeiro gênio fantástico neste mundo.
Nascemos Novamente Narcisistas, uma vida parnasiana, bela, doce, digna de ser vista por nossos olhos vítreos, e de ser vivida e gozada por nossos corpos apolíneos. Somos perfeitos, somos angelicais, somos divinos, somos eternos...
E também somos ingênuos
sábado, 16 de maio de 2009
A Refeição de Deus
A noite estava tão escura que sequer a fosforescência do visor do relógio sobrevivia à voracidade do tom negro de tudo, e eu seguia com um passo curto e rápido pelas ruas vazias e silenciosas, de concreto sujo e asfalto áspero. Além dos meus passos, ouvia-se apenas o pipilar muito distante de alguma ave noturna, uma coruja talvez, dando um ar de episódio de Scooby Doo à minha caminhada por aquelas ruas.
Meus olhos esquadrinhavam tudo à sua volta, preocupados, famintos, devorando cada detalhe que pudesse ser um alerta, meio paranóia, meio consciência: estava na cidade mais violenta do país, no país mais instável do planeta, e num planeta com tradições belicosas. Cada silvo, cada folha varrida pelo vento, cada vulto para mim era uma ameaça de disparar o coração.
Foi aí que, chegando à entrada do meu prédio, ouvi uma voz dirigindo-se a mim... “Tem fogo, moço?” dizia a voz em tom manso. No início, foi o suficiente para me deixar ofegante e com tremedeiras, mas depois de ver que era o guarda noturno da rua, as minhas mãos pararam de tremer o suficiente para apanhar um isqueiro no bolso da jeans, e acendendo o cigarro para o senhor semi-acordado com uniforme de segurança. A presença dele não me passou a sensação de tranqüilidade que eu esperava, mas era muito melhor que a tenebrosidade de encarar as amplas ruas desertas. Acendi um cigarro para mim mesmo e me virei para entrar no prédio, mas ele me chamou de novo.
Ele apenas perguntava se eu não me interessaria em uma partida curta de baralho, para matar o tempo. “Quem trabalha de vigia só faz contar o tempo, ajudar a matá-lo não seria ruim”, disse e lançou um olhar de quem pede um favor. Parte por piedade, parte por não ter motivos contundentes pra voltar pra casa, sentamos ambos numa mesinha de cimento da pequena praça de comércios na frente do bloco residencial.
Dadas as cartas para um jogo de poker normal, ele me olha fundo nos olhos, de um modo constrangedor, e de certo modo, perturbador, e pergunta num tom baixo, quase um sussurro cheio de proibição: “ta a fim de fazer o jogo ficar mais interessante?”.
Eu pensei em apostas, dinheiro pela vitória numa partida simples, no máximo um “poker por mico”, como nos tempos da faculdade, presenteando o vencedor com o direito de expor ao ridículo um dos derrotados... Mas ele apresentou um frasquinho opaco, com uma pedra porosa branca dentro.
“Isso é o que sobra dos sonhos de uma pessoa quando ela encontra com o Destino, face a face” disse com um tom de voz inaudível, como a de quem conta um segredo perigoso, “quem ganhar leva, isso dá a pessoa o poder de ver o que uma pessoa viveu e sonhou”. Indaguei qual seria a graça de ter tal prêmio, ele me censurou com os olhos, como se o prazer de tal prenda fosse algo óbvio e inigualável. “Para sentir na pele o que Deus sentiria”.
Senti um arrepio e um embrulho na boca do estômago, que atribuí às quatro vodkas que tinha tomado antes de rumar pra casa, e não a algum receio de ordem religiosa, já que, supostamente, Agnosticismo implica em não temência a um ser de probabilidade questionável. Aceitei a aposta, e abri a mão. Um par de reis, um valete, e umas cartas quaisquer, que descartei para pescar mais um valete e um rei. Full House, vitória sobre a trinca de noves do vigilante. Arrematei o frasquinho na mão e corri para o meu apartamento, como quem obteve algo maravilhoso, mas incrivelmente ilegal.
Olhei para o vidro com um olhar cheio de gulas, vendo a pedrinha branca deitada no fundo, tomando um espaço irrisório no receptáculo. Comecei a conjecturar sobre a pessoa que gerou a pedrinha, seu destino, o que lhe ocorrera para gerar aquela “Idea Sephirah”, como dizia em um game que eu jogava...
Mas a Idea Sephirah só surgia com a morte... Era isso que o vigilante dizia quando falava em “Destino”? Dúvidas começaram a me assomar, mas a atração pelo frasquinho e pela pedrinha sobrepujavam em parte os medos, e um desequilíbrio se formou em minha mente... O frasco me chamava, me consumia, e ao mesmo tempo me enchia de terror. Aquilo era o mais próximo de uma alma sólida.
Mas... Quem me provaria que aquilo era mesmo a alma de alguém? Quem me provaria que ela fora extraída de um humano? Meus dedos resvalaram na tampa, e as perguntas mudavam sutilmente... Quem poderia me culpar por ter a alma de alguém? Deus? E ele lá existe? E se ele existir, quem garante que é contra? Depois disso, foi o som de vidro raspando de leve, um baque surdo, e o arfar pesado do meu peito se silenciando noite adentro.
Meus olhos esquadrinhavam tudo à sua volta, preocupados, famintos, devorando cada detalhe que pudesse ser um alerta, meio paranóia, meio consciência: estava na cidade mais violenta do país, no país mais instável do planeta, e num planeta com tradições belicosas. Cada silvo, cada folha varrida pelo vento, cada vulto para mim era uma ameaça de disparar o coração.
Foi aí que, chegando à entrada do meu prédio, ouvi uma voz dirigindo-se a mim... “Tem fogo, moço?” dizia a voz em tom manso. No início, foi o suficiente para me deixar ofegante e com tremedeiras, mas depois de ver que era o guarda noturno da rua, as minhas mãos pararam de tremer o suficiente para apanhar um isqueiro no bolso da jeans, e acendendo o cigarro para o senhor semi-acordado com uniforme de segurança. A presença dele não me passou a sensação de tranqüilidade que eu esperava, mas era muito melhor que a tenebrosidade de encarar as amplas ruas desertas. Acendi um cigarro para mim mesmo e me virei para entrar no prédio, mas ele me chamou de novo.
Ele apenas perguntava se eu não me interessaria em uma partida curta de baralho, para matar o tempo. “Quem trabalha de vigia só faz contar o tempo, ajudar a matá-lo não seria ruim”, disse e lançou um olhar de quem pede um favor. Parte por piedade, parte por não ter motivos contundentes pra voltar pra casa, sentamos ambos numa mesinha de cimento da pequena praça de comércios na frente do bloco residencial.
Dadas as cartas para um jogo de poker normal, ele me olha fundo nos olhos, de um modo constrangedor, e de certo modo, perturbador, e pergunta num tom baixo, quase um sussurro cheio de proibição: “ta a fim de fazer o jogo ficar mais interessante?”.
Eu pensei em apostas, dinheiro pela vitória numa partida simples, no máximo um “poker por mico”, como nos tempos da faculdade, presenteando o vencedor com o direito de expor ao ridículo um dos derrotados... Mas ele apresentou um frasquinho opaco, com uma pedra porosa branca dentro.
“Isso é o que sobra dos sonhos de uma pessoa quando ela encontra com o Destino, face a face” disse com um tom de voz inaudível, como a de quem conta um segredo perigoso, “quem ganhar leva, isso dá a pessoa o poder de ver o que uma pessoa viveu e sonhou”. Indaguei qual seria a graça de ter tal prêmio, ele me censurou com os olhos, como se o prazer de tal prenda fosse algo óbvio e inigualável. “Para sentir na pele o que Deus sentiria”.
Senti um arrepio e um embrulho na boca do estômago, que atribuí às quatro vodkas que tinha tomado antes de rumar pra casa, e não a algum receio de ordem religiosa, já que, supostamente, Agnosticismo implica em não temência a um ser de probabilidade questionável. Aceitei a aposta, e abri a mão. Um par de reis, um valete, e umas cartas quaisquer, que descartei para pescar mais um valete e um rei. Full House, vitória sobre a trinca de noves do vigilante. Arrematei o frasquinho na mão e corri para o meu apartamento, como quem obteve algo maravilhoso, mas incrivelmente ilegal.
Olhei para o vidro com um olhar cheio de gulas, vendo a pedrinha branca deitada no fundo, tomando um espaço irrisório no receptáculo. Comecei a conjecturar sobre a pessoa que gerou a pedrinha, seu destino, o que lhe ocorrera para gerar aquela “Idea Sephirah”, como dizia em um game que eu jogava...
Mas a Idea Sephirah só surgia com a morte... Era isso que o vigilante dizia quando falava em “Destino”? Dúvidas começaram a me assomar, mas a atração pelo frasquinho e pela pedrinha sobrepujavam em parte os medos, e um desequilíbrio se formou em minha mente... O frasco me chamava, me consumia, e ao mesmo tempo me enchia de terror. Aquilo era o mais próximo de uma alma sólida.
Mas... Quem me provaria que aquilo era mesmo a alma de alguém? Quem me provaria que ela fora extraída de um humano? Meus dedos resvalaram na tampa, e as perguntas mudavam sutilmente... Quem poderia me culpar por ter a alma de alguém? Deus? E ele lá existe? E se ele existir, quem garante que é contra? Depois disso, foi o som de vidro raspando de leve, um baque surdo, e o arfar pesado do meu peito se silenciando noite adentro.
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